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“A onda de indignação contra a corrupção que se manifesta em toda a sociedade é um indicador seguro do quanto cresce a vontade de participação política em nosso país.” (1997)

 
 

Entrevista: Maria Nakano

Visão singular da história

Por Iracema Dantas
Coordenadora de Comunicação do Ibase

Betinho e Maria Nakano se conheceram em 1969, em uma reunião da Ação Popular (AP), mas só começam a se relacionar no ano seguinte: “Eu sabia que ele tinha sido fundador da Ação Popular, mas isso e nada era a mesma coisa. Depois de um tempo, ele tem uma crise hemofílica nesse cantinho onde morávamos. E uma parte da direção da AP decide que não dava para ele continuar vivendo daquela forma, que o melhor seria ele ir para o Chile”.

Depois do Chile, onde presenciaram o golpe contra Allende, seguem para o Panamá e, finalmente, o Canadá. Antes da volta ao Brasil, em 1979, uma parada no México: “Ainda não tínhamos certeza se viríamos ou não para o Brasil. A anistia foi em agosto, mas só voltamos em definitivo em dezembro de 1979”. Na bagagem, Betinho trouxe o sonho de um país mais justo e democrático. Cria o Ibase, em 1981, e acaba por se tornar uma referência nacional. Nesta entrevista, Maria Nakano nos revela uma visão singular dessa história – da qual ela participou ativamente como nenhuma outra pessoa.

Como você conheceu Betinho?

Maria Nakano – Conheci Betinho em 1969, rapidamente. Ele tinha vindo de Cuba para uma reunião da direção nacional da Ação Popular em São Paulo. Estava hospedada na mesma casa em que ele. Quando entrei no quarto, tinha uma pessoa dormindo na outra cama, era Betinho. Sabia apenas que era um dos dirigentes. Esse foi o primeiro contato, mas depois não o vi tão cedo.

Eu tinha um bilhete no fundo da minha bolsa e tratei de me desfazer dele na cozinha da casa do meu irmão. Nesse bilhete, estavam anotados os pontos de encontro de militantes da AP.

Seu envolvimento político foi anterior ao relacionamento com Betinho?

Maria – Sim, entrei para a AP em 1968; mas estava na universidade desde 1965. Peguei toda a mobilização estudantil de São Paulo, com José Dirceu, Catarina Nemone. Na época, fazia serviço social na PUC. Entrei em 1965 e nunca acabei, fui até o quarto ano, quase no final. Aconteceu uma série de coisas... Na época, parecia que ia viver eternamente aquilo, que o resto não ia fazer falta. Eu devia ter 19, 20 anos. Primeiro, entrei no movimento estudantil. Quando a gente começa a questionar, a tendência é perguntar “por que isso tudo é assim?”. A tendência é a de não concordar com aquela situação, então entramos em contato com colegas, que começam a nos convidar para uma manifestação, começamos a ir a uma, a duas, até que estamos metidos até a alma.

Onde você nasceu?

Maria – Em Guará, no estado de São Paulo, a uma hora de Ribeirão Preto, mas minha família se mudou quando eu tinha 1 ano para Santo Amaro, depois foi para Santo André e ali viveu. Perdi o pai quando estava com 9 anos de idade e minha mãe desenvolveu um matriarcado para segurar nove filhos. Minha irmã mais velha era casada e vivia no interior. Os outros oito filhos viviam com ela. Os quatro mais novos, a Marilena, a Kimico, eu e o Tião, foram os únicos a ir para a universidade. O restante foi no máximo até o secundário. Os que vão para a universidade é que fazem a diferença.

Duas de suas irmãs também foram militantes, certo?

Maria – Marilena foi presa distribuindo panfletos em Santo André. A Kimico teve que sair de casa por conta disso também. Depois que a Marilena já havia saído da prisão, um dia fui visitá-la em casa e o Dops [Departamento de Ordem Política e Social] estava lá. Pensei: “Pronto, agora caí, não vai ter jeito”. Estavam atrás de informações sobre a Kimico. A Marilena nesse momento estava tendo uma vida legal. Quando entrei, os agentes do Dops perguntaram quem eu era, disse meu nome e que estava indo à casa do meu irmão, que ficava no mesmo quintal da casa da minha mãe. Eles me deixaram seguir. Eu tinha um bilhete no fundo da minha bolsa e tratei de me desfazer dele na cozinha da casa do meu irmão. Nesse bilhete, estavam anotados os pontos de encontro de militantes da AP.

E o Dops permaneceu na sua casa?

Maria – Sim, os agentes ficaram revirando papéis e pedindo informações à minha mãe. Da casa do meu irmão, pulei o muro e consegui escapar. Peguei o ônibus e fui avisar minhas irmãs do que estava acontecendo. Levei a minha irmã que estava sendo procurada pela polícia para São Paulo e a Marilena foi para casa. Quando ela entrou, disse que foi ao cinema: “Tinha um encontro com minha irmã e ela não apareceu”.

Como sua mãe lidava com essa situação?

Maria – Ela não entendia. Éramos classe média. Minha mãe era dona de casa, quem trabalhava eram os filhos. Toda brecha que tinha, procurava demover a gente dessa idéia. Achava um absurdo estarmos metidas em atividade política. Tínhamos um armazém e também uma barraca de feira, meus irmãos vendiam cereais. Durante um tempo, eu participava das feiras de domingo.

Sua família era católica?

Maria – Minha mãe e meu pai eram de formação budista, mas nunca impuseram a religião para nós. Fomos para o catolicismo, mas não tínhamos convicção.

Você participou da Juventude Universitária Católica (JUC)?

Maria – Não, não passei por movimento católico; só o Betinho.

Quando você foi para a clandestinidade?

Maria – Em 1967 ou 1968, antes de conhecer Betinho. Entrei na Ação Popular e, logo depois, pelas atividades que fazia, fui chamada para o serviço. Era a pessoa que fazia o contato entre as diferentes células que havia.

Eu achava que a nossa relação estava terminada naquele momento porque eu ficaria no Brasil. Nossa organização envolvia pouquíssimas pessoas, eu achava que não fazia sentido ir com ele, abandonar tudo simplesmente.

Você falou do primeiro encontro que teve com Betinho. E o segundo, como foi?

Maria – Depois daquele primeiro encontro, Betinho foi para Mauá – onde trabalhava em uma fábrica carregando caixas, como operário – e eu fiquei em São Paulo. Durante esse tempo em Mauá, Betinho ainda vivia com sua antiga companheira. Quando ele vai para São Paulo, já separado, é que começamos a nos ver mais. Mas nesse tempo eu não tinha quase contato com o Betinho. Nosso reencontro mesmo foi em Vila das Belezas, um bairro de Santo Amaro. A gente marcou um encontro para conversar e acabamos dando nosso primeiro beijo. Betinho dizia que foi um beijo mal dado porque foi dentro de um ônibus.

Quando foi isso?

Maria – A gente começa a namorar em 1970. Decidimos alugar uma casa na Cangaíba, na Penha, em São Paulo. Era um bairro pobre. Nesse tempo, acho que eu era Marli, e o Betinho era Francisco ou Wilson. Eu continuava com meu trabalho na AP. O Betinho estava totalmente clandestino, as pessoas não podiam saber quem ele era, estava tentando integrar uma nova célula em São Paulo. Mas foi nesse momento que se viu que não havia condições de ele continuar, ele já era uma pessoa procurada.

Vocês saíram de São Paulo direto para o Chile?

Maria – Apenas o Betinho foi para o Chile nesse momento. Eu achava que a nossa relação estava terminada naquele momento porque eu ficaria no Brasil. Nossa organização envolvia pouquíssimas pessoas, eu achava que não fazia sentido ir com ele, abandonar tudo simplesmente. Além disso, era a organização que decidia quem ia, quem ficava...

E como vocês mantiveram contato?

Maria – Combinamos uma forma de correspondência, mas esqueci a senha. Durante um bom tempo, de todas as cartas que mandei, ele não recebeu nenhuma. Algumas cartas dele eu cheguei a receber. Depois procurei a direção da organização para tentar saber algo e acabamos decidindo que eu iria para o Chile. Depois, quando chego no Chile, “Meu Deus, como vou encontrar o Betinho?”. Eu não tinha o endereço, só tinha o contato, era o José Serra. Ele falou: “Vamos fazer o seguinte, me aguarde, daqui a pouco passo aí e levo você para encontrar com ele”. Quando entra a minha mala é que Betinho percebe que sou eu, fazia muito tempo que ele não tinha notícias minhas. Houve momentos em que ele achou que eu tivesse caído. Isso foi em 1971.

Como foi esse reencontro?

Maria – A partir desse reencontro é que eu vou conhecer o Betinho de verdade. Nesse momento, ele estava reassumindo a identidade de Herbet de Souza, voltando para a condição de sociólogo. Até então eu só conhecia o operário. Durante o tempo em que vivemos juntos no Brasil, eu não sabia quem ele era, nem me importava com isso, vivíamos em função do que fazíamos.

No dia do golpe contra Allende, vocês viram o ataque ao Palácio do Governo?

Maria – O prédio onde morávamos era pequeno, mas da cobertura dava para ver a fumaça que vinha, os aviões que iam para lá. Decretaram o toque de recolher. Durante três dias ou mais, não lembro, todos fomos obrigados a ficar em casa presos. Percebemos que as rádios também foram calando. E assim foi até que sobraram só as notícias dos militares. Um grupo de militares invadiu a minha casa. Eles tinham uma ordem para o Betinho se apresentar no quartel. A polícia não ficou lá, mas ficou a ordem para ele se apresentar. Peguei uma sacolinha com umas roupas e fui encontrar com ele. Fomos para a casa de um amigo chileno e no outro dia ele colocou a gente na embaixada do Panamá. De lá fomos para o Panamá. A maioria não tinha nada, só a roupa do corpo.

De lá partiram para o Canadá. Por que essa escolha?

Maria – O Panamá estava nesse momento negociando o canal e eles dariam o que a gente pedisse. Se quiséssemos ir para o Japão, para a Índia, eles dariam a passagem. Eles queriam a gente fora do Panamá. Foi isso que aconteceu, o Betinho nesse momento falou: “Vamos para os Estados Unidos, que vai ser a chance de eu voltar a fazer um curso, daí para frente a gente vê”. Mas foi só uma intenção, não deu certo. Decidimos, então, que a melhor coisa era tentar seguir para o Canadá porque depois seria mais fácil ir para os Estados Unidos. Entramos no Canadá forçando a barra. Eles até poderiam mandar a gente de volta para o Brasil, mas sabiam que estariam cometendo um crime, que estaríamos correndo risco de vida.

Betinho contava que, nesse período, vocês usavam roupas doadas. Como foi isso?

Maria – Era um frio danado. Do Panamá para o Canadá era uma diferença brutal, tínhamos que nos virar com o que desse. Os padres recebiam roupas doadas e nos davam.

Que outras dificuldades surgiram?

Maria – Ninguém falava inglês, essa foi a primeira atividade que tivemos no Canadá, fomos para a escola de imigrantes para isso. Nesse momento, o Betinho também se matricula na York University. Com essa matrícula, nós, que não tínhamos casa, conseguimos um apartamento excelente no campus. Permanecemos lá o tempo em que Betinho fazia o doutorado.

Você também estudou no Canadá?

Maria – Fiz um curso de fotografia, depois comecei a fazer desenho industrial. Baseados no Canadá ainda, resolvemos ir para a Escócia, eu passei um mês e Betinho ficou mais um tempo. E eu fui para a África. Ele aceitou ir para a Escócia porque ele não tinha condições de ir para a África, estava no começo da independência e a gente não sabia qual era a situação lá. Fui para São Tomé e Príncipe para fazer um trabalho na área da comunicação, com rádio e fotografia. Betinho ficou trabalhando na universidade, pesquisando e dando aula. Passados seis meses, a gente se reencontrou em Portugal. Em seguida, voltamos ao Canadá.

A idéia de criar o Ibase surgiu no exílio, não?

Maria – Sim, o Carlos Afonso escreve para o Betinho propondo fazer no Brasil um projeto de acompanhamento da conjuntura política brasileira, e o Betinho topa. Antes de voltar ao Brasil, fomos viver no México. A anistia foi em agosto, mas só voltamos em definitivo ao Brasil em dezembro de 1979.

Como foi que vocês receberam a notícia da anistia?

Maria – Foi um momento incrível, mas só que a gente precisava providenciar os documentos. A gente vai à embaixada brasileira, lá nos tratam desprezivelmente e dão um passaporte para nós especificamente para a volta, só para entrar.

E quando vocês ouviram pela primeira vez a música do Aldir Blanc e do João Bosco, “O bêbado e o equilibrista”?

Maria – Foi lá no México, o Henfil colocou no telefone. Foi uma coisa emocionante, mas a gente ainda não realizava bem o que era aquilo, não tínhamos o significado de tudo. Aos poucos, depois que voltamos, é que ele vai se dando conta de tudo, do que foi aquele processo de anistia. Durante muito tempo, ele tinha um medo tremendo de voltar porque ele sonhava sempre que, de repente, acordava e estava preso.

Em 1981, funda o Ibase, mas foi difícil, bem difícil. Porque, depois de passar muitos anos fora, a impressão é a de que as pessoas vão ser receptivas e isso não é verdade.

Como foi essa relação Betinho, Carlos Afonso e Marcos Arruda com a idéia de criar o Ibase?

Maria – O Betinho e o Carlos Afonso desenvolveram uma relação muito forte, viviam na mesma cidade. E o Marcos Arruda também era uma pessoa muito ligada ao Betinho. Depois, com a volta ao Brasil, o Betinho fez mais de 60 contatos com diferentes instituições e grupos que pudessem dar um apoio para essa idéia. Mas, nesse momento, existia uma grande desconfiança de quem voltava ao país. Não se tinha o apoio das instituições brasileiras.

Como assim, desconfiança?

Maria – É complicado dar nomes. Nessa época, também associavam o Betinho ao projeto Brizola. Na época já existia o Lula, a idéia de se criar um partido, e aí vinha essa figura, mais ligada ao Brizola...

E como foi o retorno ao Brasil?

Maria – Ele aceita um trabalho que o Waldo Cesar consegue para ele na FAO [Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação]. Aí ele vai ao Peru, ao Equador, faz pesquisa também no Espírito Santo, era com aquele dinheiro que se vivia. Eu consegui trabalho nos Cadernos do Terceiro Mundo. O Betinho depois conseguiu o trabalho de dar aulas na PUC e, ao mesmo tempo, fazia os contatos para formar o Ibase. Em 1981, funda o Ibase, mas foi difícil, bem difícil. Porque, depois de passar muitos anos fora, a impressão é a de que as pessoas vão ser receptivas e isso não é verdade.

Você também veio trabalhar com ele?

Maria – Eu não trabalhava no Ibase, comecei trabalhando nos Cadernos do Terceiro Mundo, trabalhei lá em 1980 e 1981. Depois, nós tínhamos um projeto de audiovisual, eu e a Cleyde Afonso, coordenávamos esse projeto, que se chamava Ceta, Centro de Treinamento Audiovisual, era autônomo, não fazia parte do Ibase. Depois, com o Collor, com as dificuldades de funcionamento que se colocaram para todas as entidades, acabamos topando vir trabalhar no Ibase. Isso foi em 1990, e o Ceta passa a fazer parte do Ibase. A gente trabalhava com material audiovisual, a idéia era dar cursos sobre preparação desse material. Nós demos diferentes cursos, em âmbito nacional, enquanto houve demanda para isso. Quando a gente se incorpora ao Ibase, a gente continua produzindo, mas já não tem a mesma demanda. Assim, começamos a produzir vídeos. Depois é que o nome se torna IbaseVídeo. Aí é que entra uma articulação maior com o Cria, um programa de rádio feito pelo Ibase.

Nessa época vocês já tinham filho?

Maria – O Henrique nasceu em 1982. Betinho sempre dizia que não queria ter mais filhos, ele tinha o Daniel e não era uma experiência fácil para o Daniel. Eu acabei comprando essa idéia, que não dava, que tínhamos que viver sem ter filho. Mas em 1981 eu comecei a pensar que um filho é uma coisa importante para uma mulher. Na cabeça dele, não havia por que ter outro filho. Eu disse a ele: “Para mim, isso é importante. Se você não quiser ter, eu vou ter”. A partir do nascimento do Henrique, percebo que era uma experiência nova para ele também. Porque o Daniel nasceu quando Betinho estava na clandestinidade, foi outra situação. O Henrique teve a felicidade de ter um pai que pôde acompanhá-lo.

A sede do Ibase na casa 29 tornou-se um lugar também de muitos encontros e festas, não?

Maria – É verdade, o Betinho gostava muito de festas e encontros. Ele gostava de promover encontros musicais e convidava os músicos de quem ele gostava, como Guinga, Rafael Rabelo e outros tantos. Betinho foi assim a vida inteira, era uma pessoa aberta para novas experiências. A convivência com ele sempre foi muito tranqüila, muito fácil. A casa que a gente tem em Itatiaia sempre foi uma casa aberta, ia quem quisesse.

É uma coisa para toda a vida. Acho que é um amor, uma relação que existiu entre nós tão forte, tão forte que nada substitui

Como Betinho vivenciou o fato de ter se tornado uma referência nacional?

Maria – Com relação aos fãs, às pessoas que o procuravam, ele tinha o maior respeito, mas ele nunca se subjugou. Por exemplo, o que aparecia de receita em relação aos cuidados com a Aids... Ele tratava todos com o maior respeito, mas continuava com os tratamentos médicos. Ele não tomava chazinhos. Enquanto pôde, viajou pelo Brasil inteiro falando sobre Aids. Até que ele deixou porque não tinha mais condições de continuar, e outros companheiros assumiram, como o Herbert Daniel.

Depois de um longo período de turbulências, vocês chegam ao Brasil em um período de abertura, conseguem realizar o projeto político que o Betinho trazia, você também consegue ter seu trabalho, seu filho e aí surge a notícia da Aids. Como vocês receberam isso?

Maria – A descoberta do vírus da Aids tem a ver diretamente com o Betinho, nunca vivenciei da mesma forma. Por exemplo, ele era hemofílico, mas nunca se permitiu ser tratado como hemofílico, nunca. Quando ele tinha problema, ia tomar a transfusão, ia fazer o tratamento, ele fazia tudo e não incomodava. Essa coisa da Aids foi se dando aos poucos. No fundo, ele já sabia que a possibilidade de isso acontecer era grande. Se os dois irmãos estavam contaminados, se ele estava perdendo os irmãos por isso, por que não aconteceria com ele? Quando ele fez o exame, a forma como enfrentou a situação foi de uma maturidade incrível. Ele nunca transferiu nada do que seja doença para outra pessoa, sempre assumiu sozinho. Por exemplo, ele sabia que tinha que tomar aqueles medicamentos em determinada hora e tomava. Não era eu que lembrava a ele. Eu acompanhava de fora, realmente. E o ajudava em determinados momentos da doença. Além disso, o período da descoberta da Aids coincide com o seu engajamento na luta pelo controle do sangue, depois vem a Ação da Cidadania. Essa conjuntura faz com que ele siga em frente.

Como foi ser casada com um homem de características tão fortes?

Maria – É uma coisa para toda a vida. As pessoas falam que agora eu vivo um outro momento... É mesmo um outro momento. Mas acho que é um amor, uma relação que existiu entre nós tão forte, tão forte que nada substitui. Eu não tenho necessidade de procurar outra pessoa, pode ser que, daqui a uns anos, eu tenha. Por enquanto, não. Como ele mesmo, é difícil encontrar outra pessoa.

O que acha que faria e pensaria Betinho diante dessa crise do PT e do governo?

Maria – Não sei, mas acho que se manteria otimista. Ele sempre foi muito otimista. Era muito sarcástico também. Eu não conheci o Betinho pessimista, o único período em que ele ficou assim – nem digo pessimista, mas muito chocado – foi com a denúncia que a imprensa fez sobre a lista do jogo do bicho. Mas ele se levantou e escreveu a resposta que tinha que dar, isso foi em 1996. Esse momento foi único.

E como Betinho estaria vendo o Ibase hoje?

Maria – O Betinho morreu em seguida a uma crise do Ibase, acho que estaria feliz por ver que o Ibase continua. E diria: “Isso mesmo, é preciso tocar para frente”. Eu sempre achei que o Ibase continuaria, seguindo um caminho que fosse possível com a conjuntura. Não tem nada aqui no Ibase que as pessoas façam de menos, elas fazem de acordo com uma determinada análise de um determinado momento, pode ser que essa análise não esteja muito clara ainda.

Qual sua expectativa com as homenagens aos 70 anos de nascimento de Betinho?

Maria – Acho que o Betinho 70 anos deve ser lembrado por nós e por outras pessoas também. Por isso, acho importante que o Ibase esteja se mobilizando para preparar isso. Não é uma coisa minha. Sei que o Betinho não era meu só, era de todos, é isso.

Participaram desta entrevista: AnaCris Bittencourt, Cândido Grzybowski, Dulce Pandolfi, Jamile Chequer e João Roberto Lopes.