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“Queremos um país democrático, onde a política se realize através da ética e onde a ética seja uma forma superior de realização da política.” (1997)

 
 

Ecos da cidadania

Leia depoimentos de pessoas que conviveram e trabalharam com Betinho.

Conheci as idéias e ações do Betinho no início da década de 90, em minha adolescência. Acompanhei sua luta na Campanha Contra a Fome, no Natal sem Fome, que marcaram profundamente minha vida pelo seu conteúdo de mobilização social para a distribuição de renda. Na realidade, entendia as campanhas como formas de despertar a solidariedade das pessoas, não no sentido de caridade, mas sim de internalização das causas sociais que levam à miséria. O que mais me admirava em Betinho era a sua capacidade irrestrita de se doar a uma causa, à causa mais grave do país, não obstante o estado de saúde paulatinamente agravante em que se encontrava. Sua morte me foi muito penosa e temo que esta e a futura geração de jovens não tenham um exemplo de ser humano tão fantástico como tive.
Denise Gallo Pizella, Sertãozinho, SP

Quando penso em Betinho, lembro de vida vivida em plenitude, na radicalidade, valorizada a cada segundo. Clamor contra as injustiças temperado com bom humor. Discursos e palestras sobre temas graves com um copo de cerveja na mão. E, especialmente, empenho em tornar cada idéia uma ação. Hoje, diria ao público jovem: alimentem sua juventude com os ingredientes que a "vitaminam": indignação cidadã, curiosidade, paixão e sonho, sempre. Não envelheçam antes da hora, com a doença senil do individualismo e da acomodação! Sigam na trilha de um outro mundo possível, que é sempre sonora. A bandeira de Betinho na atual conjuntura seria aquela multicolorida que sempre empunhou: com o verde da Reforma Agrária, com o branco da ética na política, com o vermelho da igualdade social e do sangue bom, com o azul do Rio de Janeiro mais bem cuidado, com o amarelo luminoso do povo organizado, protagonista que fará desta vergonha uma nação.
Chico Alencar, deputado Federal, PSOL/RJ

Primeiramente, achava que os ideais eram somente de luta contra a Aids, por ser um problema pessoal dele, depois vi que era a sua alma que ansiava por igualdade social, por direito básico à vida, que inclui saúde, educação, alimentação e tudo que um ser humano precisa para viver com dignidade. Fiquei tocada e ao mesmo tempo triste por não estar fazendo nada pelos ideais dele e que, são lá no íntimo, os meus também, triste por pensar demais e fazer de menos, triste porque, em algum momento na vida, eu me desviei e comecei a querer coisas nada nobres. A influência que Betinho teve em minha vida foi a redescoberta de que você sempre pode fazer algo, o mínimo já é muito. E, com um pouquinho de coragem, conseguimos modificar o mundo, pelo menos uma pontinha dele. Me instigou a correr atrás da nutrição, que foi o que sempre quis fazer, e a trabalhar com o básico que é alimentação de forma digna...
Juliene de Jesus Moura, Gama, DF

Conheci Betinho em 1985, através de Hélio e Peggy Pereira (dois cientistas de renome internacional que vieram morar no Rio de Janeiro naquela época, após carreira na Inglaterra). Eles tinham o interesse de fundar uma associação nacional interdisciplinar contra a Aids. Fui convidado a participar de algumas reuniões com diversos pesquisadores e intelectuais que tinham interesse em combater a difusão da doença em nosso país e, principalmente, preveni-la. Logo após, foi fundada a Abia que, graças ao Betinho, acabou fazendo mais sucesso do que a fundação norte-americana que lhe deu origem. Em 1987, coordenei um trabalho que mostrou que mendigos vendiam sangue a bancos de sangue clandestinos, no Rio e na Baixada Fluminense. O trabalho acabou sendo, com o fundamental apoio do Betinho, o gatilho que disparou a lei de obrigatoriedade de testagem de todo o sangue a ser transfundido em nosso país. Nós não teríamos conseguindo esse êxito sem a sua participação. Muitos outros fatos importantes em relação à Aids ocorreram, todos com intensa participação do querido Betinho (quase sempre acompanhado de Maria): um homem humilde, ético e brilhante, que deu sua vida pelo nosso povo.
Luiz Roberto Castello Branco, chefe do Laboratório de Imunologia Clínica – Instituto Oswaldo Cruz – Fiocruz.

O que mais me marcou foi a ênfase na democratização da informação como passo fundamental para o pleno exercício da cidadania. Até então, como jornalista, só havia trabalhado em veículos comerciais. Foi a partir dessa luta do Ibase, e de Betinho em particular, que mudei minha forma de encarar o papel do(a) profissional de Comunicação na sociedade. Com certeza, aprendi muito todas as vezes que tive a felicidade de escutar Betinho, nas análises de conjuntura, nas reuniões de trabalho e mesmo nas festas na famosa "casa 29". O olhar dele sobre a importância de todas as pessoas terem acesso a informações de qualidade mudou minha forma de atuar, profissional e pessoalmente.
AnaCris Bittencourt, jornalista do Ibase

Nesse momento em que o país vive uma onda de indignação por conta das denúncias de corrupção nos vários poderes da República e do espetáculo construído em torno delas, recordo a onda muito mais profunda e os espetáculos bonitos e criativos surgidos a partir da inspiração e da instigação de Betinho contra a iniqüidade social que marca a sociedade brasileira e que está na base dos nossos problemas éticos. Os valores da "Campanha contra a Fome", como ficou grafado na memória nacional, estão inscritos permanentemente na prática de muitos de nós.
Eduardo Homem, Centro de Cultura Luiz Freire

O Betinho, mesmo com aquele jeito turrão, conseguia que a gente se envolvesse nos seus sonhos e fizesse de suas afirmações nossas verdades. Foi assim com a Ação da Cidadania e com a reconceituação da fome.
Magnólia Azevedo Said, Esplar

Trabalhei com Betinho de 1983 a 1985, na Campanha Nacional pela Reforma Agrária. Ele era o coordenador geral da iniciativa, e eu a secretária. Depois, trabalhei com ele novamente entre 1988 e 1989. Essa convivência foi importantíssima. Com Betinho aprendi que há lugar para todos e que todas as boas idéias precisam ser incentivadas. E ele nos ajudava a implementá-las. Aprendi com a sua coerência e radicalidade, que defendia sempre o lado da sociedade organizada, fortalecendo-a. E seria isso que poderia levar/obrigar o Estado (e os partidos) autoritário a cumprir o seu papel na construção conjunta da democracia. Que pena ele não estar aqui, neste momento do Brasil! Tive a oportunidade de observar como aplicava no dia-a-dia os três pilares da democracia que defendia – a diversidade, a igualdade e a liberdade. Aprendi também com sua ousadia e coragem. E, mesmo com a fraqueza física, ele usava o seu carisma para o bem coletivo. Como era meio visionário e muito lúcido, entendi e acreditei logo na proposta da Ação da Cidadania, criticada por muitos. A iniciativa despertou um sentimento esquecido no âmago de cada brasileiro(a). Aprendi também um método para lidar com tantos conflitos e diversidade – procurar o consenso, a negociação, e não perder tempo quando a pressão de algumas assessorias queria forçar os movimentos a cumprir palavras de ordem que ainda não estavam amadurecidas. E ainda, quando precisava dar sua opinião sobre temas nacionais mais específicos, chamava as pessoas nas quais confiava e aprendia com elas. Essa simplicidade e, principalmente, o humor, em tudo e para tudo são marcas que não desaparecerão nunca da lembrança que temos dele.
Sonia Carvalho, Enda Brasil

O Betinho era o sábio peregrino que caminhava com destino a um mundo onde todos deveriam ser iguais. Todas as suas ações, inclusive as mais simples, tinham sentido engrandecedor. O que mais me admirava era a sua noção de cidadania. A noção de que todos deveriam ter seus direitos reconhecidos e respeitados. Aprendi que deveríamos sempre, todos os dias, todas as horas e em todos os lugares nos indignar contra as injustiças sociais. Deveríamos lutar, perseverar, perseguir de forma incansável, não desistindo nunca desse objetivo, dessa idéia e desse sonho de mundo ideal. Pensar, descobrir, inventar a cada dia um novo sentido para essa luta era a energia que o sustentava. A maior vitória seria a exclusão das desigualdades e a inclusão dos excluídos. Humano, lutador, inteligente, perseverante, intransigente na busca de um mundo igual para todos. Esse foi o Betinho que conheci, o Betinho com quem convivi e o Betinho que amei.
Rozi Billo, Ibase, foi secretária do Betinho de 1993 a 1997

Betinho era danado para sacar o momento e pautar os acontecimentos, entre uma cervejinha e outra. Conheci-o quando chegou do exílio insistindo em priorizar, no interior da nossa agenda de ONGs e organizações de esquerda, de forma radical, uma palavra: democracia. Dez anos depois, na Ação da Cidadania, foi a sensibilidade para provocar e deixar fluir o inusitado. Mobilizar e incluir todo mundo, dar a palavra, descentralizar, inventar na política: os comitês eram isso. Que desvio, que novo olhar, que truque nos proporia nesta armadilha de hoje?
Leilah Landim, Iser

A convivência com o Ibase do Betinho foi uma das experiências profissionais mais marcantes de minha trajetória – experiência rica de convivência interdisciplinar, de pesquisa orientada para ação política e de envolvimento com uma equipe de alto nível e engajada. Aprendi muito, e o Ibase nunca deixará de fazer parte, uma parte particularmente importante, de minha vida pessoal e profissional.
Isabel Carvalho, ex-Ibase, professora da UFRGS

Betinho foi um exemplo de ética e coerência para todos nós, seus companheiros de geração e de lutas. Sua dedicação à causa de um mundo mais justo era emocionante e durou por toda a sua vida: da luta clandestina às instituições e campanhas que liderou em condições adversas de saúde. Um homem como poucos, de que o Brasil sente uma falta enorme.
Ari Roitman, Editora Garamond, Editora Espaço&Tempo

Conviver com Betinho foi uma inesquecível lição de vida e, principalmente, de otimismo. Para Betinho nada era impossível. Problemas viravam desafios. E ele era movido por grandes desafios. Mas o que ficou mais presente em minha lembrança foi o seu olhar. Terno e ao mesmo tempo forte, decidido. Verde como a esperança que ele plantava a cada dia.
Nubia Gonçalves, coordenadora do Ibase

O Betinho redescobriu o Brasil. Um Brasil que tem compaixão por quem tem fome. Que é capaz de se mobilizar de norte a sul em torno da bandeira da solidariedade. Que é capaz de se indignar com o sistema político e defender a ética na política. Um Brasil que reconhece o papel do Estado, mas que não depende dele para tomar iniciativas. Penso que esse Brasil havia sido vigoroso nas décadas de 1910 e 1920, mas foi exitosamente reprimido pela Revolução de 1930 e pelo autoritarismo estatal que veio a seguir, seja em regimes autoritários, seja nos chamados democráticos. A genialidade do Betinho foi a de acreditar nos brasileiros e, ao interpelar a cidadania, gerar uma explosão da energia criadora que estava reprimida, em um feliz casamento da liberdade com a solidariedade.
Sonia Fleury,  Programa de Estudos sobre a Esfera Pública
Observatório da Inovação Social

Para agir, especialmente para agir politicamente, é preciso acreditar. Dialogar e trabalhar com Betinho foi, na minha experiência de vida, uma confirmação persistente dessa afirmação. Ao mesmo tempo, também aprendi com Betinho que, se quisermos estar em sintonia com o mundo onde se desdobram nossas ações, é preciso duvidar das nossas certezas.
Sonia Corrêa, Rede Dawn

Betinho dizia ter querido ser músico. Buscava uma linguagem universal, comunicar sentimentos, ligar pessoas. Ora, de fato, para despertar a ação crítica, o que fez foi sintonizar espíritos – uma certa modalidade mineira de música.
Henri Acselrad, UFRJ

De múltiplas formas, em 1982, participava com Betinho da coordenação da Campanha Nacional pela Reforma Agrária. Vendo a minha preocupação ecológica, ele me incentivou a reunir várias entidades ecológicas com propostas para a cidade, a pesca, a agricultura orgânica e a qualidade de vida urbana. Criamos, então, a Assembléia das Entidades de Defesa do Meio Ambiente (Apedema), em 1985. Foi Betinho quem me sugeriu a candidatura a deputado pela primeira vez, em 1986, e declarou seu voto. Durante o mandato, ele me ligava toda semana cobrando alguma coisa ou dando alguma sugestão. Sugeriu que fôssemos aos bancos de sangue com técnicos analisar a qualidade e cobrar testes e que fizéssemos forte campanha contra o recebimento de jetons por deputados. Na guerra contra a corrupção na Alerj, sugeriu a lavagem da estátua Tiradentes. Ele foi lá, pessoalmente, usar mangueira e vassoura. Organizamos, conjuntamente, a trégua ecológica para a Amazônia, com Chico Mendes, Pingueli etc. Betinho era crítico feroz, mas de diálogo, propositivo, mantendo o humor, criando fatos e batalhando por projetos com todos, inclusive adversários. Sua amizade, carinho, firmeza, insistência, vibração, contato com a mídia, comunicação direta foram lições fundamentais – não apenas para mim, mas para centenas de ONGs, militantes, cidadãos. Grande Betinho querido, outro chope em sua memória.
Carlos Minc, deputado estadual (PT/RJ)