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“A democracia esbarrou na cerca e se feriu
nos seus arames farpados.” (1990)

 
 

Com a palavra, Betinho
Terra e cidadania

Herbet de Souza

Um dia a vida surgiu na terra. A terra tinha com a vida um cordão umbilical. A vida e a terra. A terra era grande e a vida pequena. Inicial.

A vida foi crescendo e a terra ficando menor, não pequena. Cercada, a terra virou coisa de alguém, não de todos, não comum. Virou a sorte de alguns e a desgraça de tantos. Na história foi tema de revoltas, revoluções, transformações. A terra e a cerca. A terra e o grande proprietário. A terra e o sem-terra. E a morte.

Contexto
A miséria nasceu da terra

Carta da Terra, lançada em outubro de 1994. A luta pela reforma agrária representou a terceira etapa da campanha Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, lançada em 1993. Segundo Betinho, “este país tem um pecado original. Essa miséria não nasceu do nada. Ela nasceu da terra”. O sociólogo já tinha trajetória de luta nesse campo: desempenhou papel decisivo na articulação da Campanha Nacional pela Reforma Agrária, em 1983, e organizou o movimento Terra e Democracia, em 1990.

Muitas reformas se fizeram para dividir a terra, para torná-la de muitos e, quem sabe, até de todas as pessoas. Mas isso não aconteceu em todos os lugares. A democracia esbarrou na cerca e se feriu nos seus arames farpados. O mundo está evidentemente atrasado. Onde se fez a reforma o progresso chegou. Mas a verdade é que até agora a cerca venceu, o que nasceu para todas as pessoas em poucas mãos ainda está.

No Brasil, a terra, também cercada, está no centro da história. Os pedaços que foram democratizados custaram muito sangue, dor e sofrimento. Virou poder de Portugal, dos coronéis, dos grandes grupos, virou privilégio, poder político, base da exclusão, força do apartheid. Nas cidades, virou mansões e favelas. Virou absurdo sem limites, tabu.

Mas é tanta, é tão grande, tão produtiva que a cerca treme, os limites se rompem, a história muda e ao longo do tempo o momento chega para pensar diferente: a terra é bem planetário, não pode ser privilégio de ninguém; é bem social, e não privado; é patrimônio da humanidade, e não arma do egoísmo particular de ninguém. É para produzir, gerar alimentos, empregos, viver. É bem de todos para todos. Esse é o único destino possível para a terra.

Assinam esta carta os que desejam mudar a terra, querem democratizar a terra, querem democracia na terra, querem reforma agrária. Mas ainda neste século. Já se esperou demais. A democracia na terra é condição da cidadania. Essa é uma tarefa fundamental da Ação da Cidadania.

Que o novo presidente execute essa reforma. Que o novo Congresso legisle pela reforma. Que os novos governadores participem dessa mudança. E que a sociedade seja o verdadeiro ator dessa nova peça para mudar a face da terra. A partir daí, a vida na terra será melhor.