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“Quem faz história são as pessoas, e não o contrário. Mas, para isso, é necessário sempre tentar o impossível, já que o possível de todo jeito acontecerá.” (1997)

 
 

Com a palavra, Betinho
O impossível na política

Herbet de Souza

Está na moda falar da política do possível como uma virtude e do impossível como uma forma de utopia idiota. Afirma-se que a globalização (leia-se capitalismo mundial) reina no mundo de forma definitiva e inevitável. Afirma-se, reconhecidamente, que a humanidade não cabe toda nela: é excludente. A política do possível é aceitar esse fato. O impossível é mudar esse categórico, à Kant: é perda de tempo, é tarefa de ociosos e iludidos. O inteligente agora é render-se às evidências da moda.

Nesses termos, a escravidão era inevitável nos tempos coloniais. O negócio era aceitar a escravidão e tentar mostrar um lado da face, o humanizado. A corrupção na política também é inevitável. A questão, portanto, é fazer o possível para domesticá-la e deixar a “ética na política” para os militantes de esquerda, padres e pastores. Negociar é necessário e é dando que se recebe. Só se deve fazer o possível, o resto é supérfluo. Seguindo esse raciocínio, não se pode erguer a bandeira do fim da miséria porque é impossível. A resignação passa a ser salutar para a boa política, os utópicos fazem mal e devem ser evitados. O Ministério da Saúde deveria informar: utopia faz mal à saúde social.

Mas a história concreta é diferente. O impossível acontece, principalmente na política. Quem diria que o
impeachment de Collor era possível? Ninguém. No entanto, aconteceu contra todas as evidências e previsões. Quem diria que um movimento pela ética na política pudesse ganhar os corações e mentes de milhões de brasileiros a ponto de mover o Congresso, que havia dormido lado a lado com a corrupção por muito tempo tendo na cama os anões do orçamento? E aconteceu.

Quem diria que a anistia era possível em plena ditadura militar? Que as diretas já poderiam emplacar? Que as administrações municipais viriam a ser o aspecto mais importante da política contemporânea a ponto de mobilizar essas últimas eleições com tanta energia? Que o movimento dos sem-terra poderia estar na novela das oito? Que a Constituição de 88 pudesse acontecer com a participação direta de pelo menos 15 milhões de brasileiros e brasileiras?

Se fizermos bem as contas, deveríamos concluir que é na política que o impossível acontece. Foi assim com Gandhi, Ho Chi Minh, foi assim na revolução cubana contra Baptista.

Falta base concreta para a tese de que a política é a arte do possível, argumento usado por todos aqueles que se recusam a tentar o impossível para ficar de bem com o statu quo e dormir tranqüilos ao lado da miséria, da fome, do desemprego, das Bósnias, das guerras, da violência e da globalização inevitável.


Enquanto o Titanic ainda flutua, tentemos o impossível para mudar o seu curso, afinal quem faz história são as pessoas, e não o contrário. Mas, para isso, é necessário sempre tentar o impossível, já que o possível de todo jeito acontecerá.

Texto publicado em 1997