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“É preciso acreditar no futuro para sair do presente que nos assusta e envergonha a todos.” (1993)

 
 

Com a palavra, Betinho
O novo está nas ruas

Herbet de Souza

O governo Collor ganhou as eleições e começou a governar pretendendo ser o novo na política. Um presidente novo, um partido novo, um programa novo, um Brasil novo.

Nos primeiros dias, apresentou um programa de combate à inflação realmente novo: confiscou, em pleno regime capitalista, toda a riqueza particular depositada nos bancos. Um ato de violência fora da lei, que só foi aceito porque feito em nome do combate à hiperinflação, apresentada como o maior e mais fatal de todos os perigos.

Depois, veio a nova reforma administrativa, que jogou por terra toda a já quase falida máquina burocrática do Estado. O novo estilo de governar em jet ski e peripécias de marketing. A nova política econômica, neoliberal, que prometia colocar o Brasil no Primeiro Mundo pela porta da privatização, da “abertura”, da economia e da inflação zero.

[...]

O caçador de marajás se revelou um formador de quadrilha, tendo PC Farias corno tesoureiro. Em dois anos, graças ao desmonte da máquina estatal, que foi desarmada para não reagir ao assalto, foi montado um dos mais complexos sistemas de roubo de dinheiro público de que se tem notícia em nossa história.

[...]

Mas o presidente Collor, em sua arrogância, não foi capaz de perceber que a eleição direta que o fez presidente foi o resultado de algo efetivamente novo na sociedade brasileira, o exercício de uma liberdade conquistada através de uma grande onda democrática.

Contexto
Movimento e ética

Em 7 de julho de 1992, no Rio de Janeiro, representantes de mais de 200 entidades da sociedade civil leram, à luz de velas, 12 artigos da Constituição que lembram os princípios fundamentais da ética na política, dos direitos sociais, da democracia e das responsabilidades do presidente da República. Foi o estopim para o Movimento Democrático pelo Fim da Impunidade, posteriormente rebatizado de Movimento pela Ética na Política (MEP), que tinha Betinho e o ator Paulo Betti na equipe organizadora. A iniciativa culminou com o
impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, em setembro do mesmo ano. Em abril de 1993, o Movimento pela Ética na Política abraçou a idéia da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, caracterizando-a como um movimento suprapartidário, ecumênico e plural que se propunha a organizar a sociedade nas ações emergenciais e na luta estrutural contra a miséria no Brasil.

CD-ROM Sementes de solidariedade: Betinho e o Ibase na Ação da Cidadania – 1993/97

Collor não foi capaz de entender que o novo no Brasil não é ele, mas a democracia. Ele se confundiu e se perdeu, pensando que o país estava livre para ele fazer dele e com ele o que bem entendesse, sem limites, sem princípios e sem fim. Mas, não. O processo democrático que colocou fim à tragédia da ditadura militar vai impedir que outra ditadura se implante como farsa. Nem armas nem votos têm poder e competência para se impor acima da ética e da lei. Eleger alguém não é colocá-lo acima da Constituição e da ética.

Por isso, não têm sentido os cálculos de maioria e minoria no Congresso, pró ou contra o impeachment. Tem sentido agora a ética, a cidadania, o respeito à Constituição e a consulta à consciência de cada um.

O novo do processo democrático acaba de revelar algo que enche o Brasil de esperança: a juventude que parecia ausente do drama nacional. De repente, milhares de jovens nas ruas, movidos por eles mesmos, chamados por eles mesmos, por suas consciências, valores éticos, esperanças, novas visões. Jovens sem o medo da ditadura, criados no clima de liberdade que conquistamos com as lutas do passado. Filhos da liberdade, olhando para a frente.

Esse é o movimento que já está colocando milhares de pessoas nas ruas do Brasil e que vai ajudar o próprio país a superar o presente. Os jovens vão enterrar a era Collor, como as diretas enterraram a ditadura. Eles vão ajudar a enterrar o autoritarismo que nos entregou a Collor, para fazer nascer a democracia estampada em cada um de nossos sonhos. É preciso ser jovem no Brasil para acreditar no futuro. É preciso acreditar no futuro para sair do presente que nos assusta e envergonha a todos.

Nas diretas, as grandes concentrações eram organizadas pelos governantes, partidos, centrais sindicais. Havia palanque, som e muitas outras coisas que requeriam recursos. Hoje, as primeiras manifestações nas grandes cidades nascem da própria cidadania e de algumas entidades da sociedade civil. Os governos estaduais e municipais, com raras exceções, assim como as redes de TV, estão ainda fazendo seus cálculos. Mas os jovens já fizeram sua opção pela ética e pela democracia. Deles vai nascer um grande rio que vai lavar a alma do Brasil.

Aos 56 anos de idade, sobrevivente de muitas caminhadas, estou nessa. Não creio no Estado como solução, creio na sociedade. Não creio no poder, creio na liberdade. Não creio nos que se acomodam e desistem. Creio nos que pensam e agem em função do futuro e da felicidade de todos.

Que bom estar vivo para ver o que estou vendo nas ruas de meu país!

Trechos do texto publicado em O Estado de S.Paulo, de 29 de agosto de 1992